Viagem Insólita


Não, não, o título não tem nada a ver com o filme de mesmo nome, dirigido por Joe Dante em 1987, com 120 minutos de ação, e que ganhou o Oscar de efeitos visuais. Mas eu garanto que as cenas que narro aqui são bastante atraentes. O tempo de duração é menor, não se preocupe.

Semana passada, em viagem pequena entre duas cidades da Serra Gaúcha, deparei-me com cena insólita no coletivo. Gosto dessa coisa de viajar de ônibus. Além de ter janelas amplas para ver a paisagem, o que acontece ali dentro só acontece ali dentro e, quase sempre, assisto os motivos que utilizo na minha escrita.


Na metade do caminho, próximo a um abrigo de parada à beira da estrada, escutei o som da campainha sinalizando ao motorista para “parar na próxima”. Como eu estava na terceira fila de bancos, no corredor, via com facilidade tudo o que acontecia no vão da frente onde o povo transita antes de ser desovado.


Quando o veículo parou, começou a descer uma senhora portando quatro volumes gigantes. Duas sacolas de plástico estilo supermercado, uma bolsa de viagem de lona com alças curtas e uma sacola que até agora não sei explicar como era. Eram grandes e estavam cheias. Ela começou a descer e insisto nesta expressão, porque do início até o fim da descida daquela cidadã, assisti a um pequeno filme. Insólito, deveras. Foram alguns segundos impagáveis.


Aquela senhora tinha corpo avantajado, redondo, volumoso, parecido com as sacolas. Sendo assim, eu vi cinco volumes se aprontando para descer. E começou o desfile de gestos, puxa daqui, estica dali e a mulher não saia do lugar. Mais uma tentativa e um volume ficou com a alça presa na ferragem do banco, outro volume também e a mulher resmungava e eu só olhava. Eu e a galera da frente. Madonna mia, parecia que eu tinha que ir ajudá-la. Aquilo me dava nos nervos.


Uma última tentativa e a matrona conseguiu arrastar os quatro pesadelos escada abaixo. Olhei para o abrigo da parada, lá estava a mulher se recompondo. Cara amarrada, dois volumes em cada mão, olhando para os lados. Olhei para a moça sentada ao meu lado, fiz cara de satisfação, tipo assim, sorrir puxando os lábios para as duas laterais, ela sorriu e disse: são esmolas. Arregalei os olhos questionando. Ela completou: esta mulher é uma pedinte e o que ela traz nas sacolas são as esmolas que recebeu hoje.


Ufa! Não sei se me senti aliviada porque a mulher conseguiu descer ou porque conseguiu tudo aquilo. Foi bom constatar que pedintes andam de ônibus e voltam para casa com a mala cheia. Em tempos modernos mas bicudos na busca por emprego, este pode ser o plano B.


Neusa Maria Gedoz – 01 de agosto de 2010

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Fazendo as pazes com a escrita

Um ano e meio sem escrever. Este foi o tempo que fiquei sem produzir sequer um parágrafo fora das respostas a e-mails. Sempre pratiquei a escrita, desde que me conheço por gente. Minha primeira poesia nasceu logo após completar treze anos. De lá para cá vinha escrevendo regularmente, com alguns pequenos intervalos em função de compromissos que exigiam distância de uma máquina de escrever ou computador. Agora, depois dos cinquenta, no auge do amadurecimento, fiz uma parada de dezoito meses. Quase não acredito que fiz isto comigo. Pra mim, escrever é mais ou menos como comer. Todo dia preciso um pouco. Por isso, meio que me abandonei. Meu eu ficou magro.

Não tenho muita curiosidade em descobrir o motivo deste espaço em branco. Penso que não precisamos respostas pra tudo. Gosto de fazer o que me dá prazer. Não gosto de fazer nada sob pressão. Não estava a fim de escrever e pronto. Talvez esteja ai parte da resposta. E outra parte pode estar na obediência semanal ao meu hobbie predileto: fotografia.

Fotografo desde cedo também e, de uns anos pra cá, minha paixão pela fotografia foi se aprimorando, foi virando mania, foi se transformando em rotina. Apenas para ilustrar, minhas primeiras fotos foram capturadas, também, aos treze anos, com uma câmera analógica da época, e o cenário era composto por Branca de Neve e os Sete Anões, estatuetas rigorosamente plantadas nos jardins do hospital de minha cidade. Um luxo só.

No final do ano passado, quando fechei quatro décadas de fotografia, voltei àquele local e fotografei os mesmos personagens, o mesmo cenário. Com pequenas diferenças: algumas rachaduras nas estátuas e a pintura marcada por uma demão sobre a outra. Um momento único, impagável. Essa paixão pela fotografia é prazerosa. Com ela não tenho decepções. Assim como não as tenho com a escrita.

Confesso que neste ano e meio afastada do teclado, nunca me senti totalmente à vontade. Parecia que faltava algo. Em muitos momentos me pegava pensando: preciso voltar a escrever. Me penitenciava pela falta comigo mesma, mas acabava sempre ficando com a fotografia. São fases. Acredito (muito) nesta frase de duas palavras.

O parar de escrever veio acompanhado do para de ler. Durante este tempo li somente o que passava à minha frente, tipo assim, cartazes nas vitrines, outdoors, jornal em salão de beleza, fofocas sobre celebridades em recepções, meia dúzia de livros e textos recebidos pela net. Isto e nada é a mesma coisa. Sem leitura, nada de escrita. Sem escrita, sem identidade própria. E mais, sem escrever, não alimentei meu blog. Foi outro que passou fome. Vez ou outra dava uma passada por ele e lia minhas crias. Todas as vezes sentia remorso.

Dizem que sempre é tempo de retomar, refazer e reviver. Então, estou de volta. Fazer as pazes com o exercício da escrita é brincar com o cotidiano, é deixar as ideias fluírem pelos dedos, é desmanchar o nó da garganta, é tomar sopa de letrinhas pra nutrir minhas entranhas. Fazer as pazes com a escrita é entrelaçar de novo as letras, é ler para escrever e escrever para ler. O único senão dessa história é, mesmo contrariada, reafirmar a amizade com a reforma ortográfica.
Pronto. A paz está restabelecida: sete parágrafos, mais de 3200 palavras e meu eu está aplaudindo meu desabafo. Ufa... hoje lavei a alma.


Neusa Maria Gedoz – 21 de junho de 2010

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MULHERES QUE FAZEM HISTÓRIA

A morte da brasileira Zilda Arns despertou um desejo que estava guardado: divulgar, através de meu blog "Pedaços de Mim", pedacinhos das vidas de Grandes Mulheres. Mulheres de ontem e de hoje. Escolhi algumas para fazer este post, mas existem outras tantas que merecem ocupar um lugar aqui. Seja bem-vinda(o) e, no seu comentário, escreva o nome de alguma mulher que lhe chama atenção pela vida e pela obra. Terei satisfação em colocar sua sugestão neste blog, citando seu nome.

Estas mulheres viveram em realidades diferentes e enfrentaram uma série de dificuldades, mas nunca deixaram de mostrar tenacidade, persistência, coragem e dedicação na luta por seus ideais. Cada uma, a seu jeito e a seu tempo, teve a capacidade de imprimir sua marca, suas voz e suas ideias e conseguiu mudar capítulos da história de um país, às vezes do mundo inteiro.


ZILDA ARNS - Doutora em Pequenas Fórmulas e Grandes Resultados.

Em 20 anos ela promoveu uma revolução na saúde pública do Brasil. Aliando experiência, bom senso e fórmulas simples, Zilda Arns Neumann, médica pediatra sanitarista, planejou a atuação da Pastoral da criança para vencer e amortalidade e a desnutrição infantil. Um dos segredos: multimistura com farinha altamente nutritiva, farelos de trigo e arroz, pó de casca de ovo e outros ingredientes. (quase inacreditável em meio à bagunça generalizada da Saúde no Brasil)



PRINCESA DIANA

Diana Frances Spencer, uma das mulheres mais amadas e fotografadas do mundo, se aproximava de crianças, doentes e mutilados e ainda abraçava aidéticos com a mesma naturalidade com que se exibia entre celebridades. Daí o título de "Princesa dos Pobres".





ANA NÉRI

A primiera brasileira a cuidar de soldados feridos nasceu em 1814 na Bahia. Ana Justina Ferreira, depois que ficou viúva aos 29 anos, decidiu ser enfermeira voluntária na Guerra do Paraguai para atender os feridos e acompanhar seus dois filhos médicos. Instalou uma enfermaria-modelo, com dinheiro do seu próprio bolso, convivendo com mutilados, epidemias e privações. Quando a guerra terminou foi reconhecida como precursora da Cruz Vermelha.


IRMÃ DULCE

A baiana Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes, aos 13 anos, decidiu ser freira e dedicar a vida aos pobres. Como freira adotou o nome de Irmã Dulce. A partir daí, trabalhou incansavelmente até o fim da vida. Batia de porta em porta pedindo donativos e circulava nos mercados, feiras livres e gabinetes de governadores, prefeitos, secretários, presidentes da República atrás de doações. Competente administradora, tinha tudo sob controle.


MARIE CURIE

Maria Salomea Sklodowska (da Varsóvia) enfrentou o preconceito de ser mulher e estrangeira, formou-se em ciências físicas e matemática na Sorbonne. Nas horas de folga, trabalhava num pavilhão precário fazendo pesquisas e em 1898 anunciou a descoberta do rádio, dois milhões de vezes mais radiativo que o urânio. Quatro anos depois, conseguiu obter o rádio puro e comprovou sua ação terapêutica sobre o câncer. Em 1911 recebeu o Prêmio Nobel de Química por produzir rádio puro.


FLORENCE NIGHTINGALE

A italiana de origem inglesa Florence Nightingale, era rica. Seu temperamento forte e decidido levou-a a buscar a independência aos 17 anos. Como enfermeira, iniciou sua vida profissional sempre calcada no estudo de novas técnicas de organização e gerenciamento em hospitais. Liderou 38 voluntárias na Guerra da Criméia. Em meio à sujeira, abandono, desorganização, atendimento ineficiente e dejetos convenceu os médicos a aceitarem seu trabalho. Com essa determinação, conseguiu a reforma do sistema de hospitais militares de saúde pública na Inglaterra.




AGNES GONXHA BOJAXHIU, ou Madre Teresa de Calcutá.

Nasceu na Macedônia. Depois de se tornar freira foi morar em Calcutá, na índia. Trabalhava com indigentes nas favelas e fundou a Ordem das Missionárias da Caridade. Construiu centros de atendimento para doentes, cegos, idosos e deficientes físicos. Trabalhava também fora da Índia; em Nova York criou o primeiro centro de aidéticos. Seu trabalho foi reconhecido pelo mundo todo e em 1979 recebeu o Prêmio Nobel da Paz.












ANITA GARIBALDI

Admirada no Brasil e idolatrada na Itália, a humilde jovem de Laguna- Santa Catarina, Ana Maria de Jesus Ribeiro, conhecida como Aninha do Bentão, uniu-se ao revolucionário Giuseppe Garibaldi. Lutou na Guerra dos Farrapos no Brasil, na Guerra Civil do Uruguai e na Itália. Foi soldado, enfermeira, esposa e mãe. Em todos os papéis, sua batalha sempre foi travada em nome da liberdade e da justiça. Tornou-se assim Anita Garibaldi, a "Heroína dos Dois Mundos". (Este nome foi sugerido por Lison, um amigo do Dihitt)






MARIA DA PENHA

Em 1983, a biofarmacêutica e cearense Maria da Penha Maia Fernandes viveu talvez o mais importante drama de sua vida. Enquanto dormia, levou um tiro nas costas do marido, o professor universitário Marco Antônio Heredia Viveros. Maria da penha tinha 38 anos e três filhas. Ficou paraplégica. Após esse episódio houve a segunda tentativa de homicídio: o cônjuge a empurrou da cadeira de rodas e tentou eletrocutá-la embaixo do chuveiro. Viveros só foi punido depois de 19 anos de julgamento e ficou apenas dois anos em prisão de regime fechado. Depois de 20 anos de luta pelos direitos da mulher, Maria da Penha, atualmente com 63 anos, conseguiu com que a justiça fosse feita. Ela atuou na coordenação de políticas para as mulheres na prefeitura de Fortaleza. Em 7 de agosto de 2006 passou a valer, no Brasil, a lei número 11.340, que garante os direitos da mulher em casos de violência doméstica. A norma ficou popularmente conhecida como a Lei Maria da Penha, que trata desses casos. (Este nome foi sugrido por Lison, um amigo do Dihitt)



O instinto materno das mulheres aqui apresentadas mostrou ao mundo que, para dar dignidade aos doentes e necessitados, é preciso apenas FAZER O BEM, SEM OLHAR A QUEM. Na foto abaixo está impresso um fragmento das cenas diárias de abandono que surgem aqui e ali, nas calçadas de quase todos os países. Reflexão: será que alguma mulher (anônima ou não) poderá amenizar essa situação, ou os governos criarão vergonha na cara?

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Encontros e Reencontros


Fui surpreendida nessa semana que passou por uma mensagem no orkut que dizia: Te encontrei, menina!!!!! A mensagem parecia um grito, considerando o número de pontos de exclamação que a pontuava. Junto à frase veio um convite para ser sua amiga virtual. Imediatamente lá fui em busca da página do remetente. Li nome e sobrenome e lembrei de um ex-colega de trabalho de mais de 20 anos.

Aceitei o convite e escrevi-lhe uma mensagem de boas vindas. Em 10 minutos estávamos no MSN relembrando os velhos tempos. Que a internet é rápida, todos sabemos, mas a curiosidade movida pela saudade, é igualmente rápida, senão mais. Teclei por mais de uma hora com este amigo ressurgido pelas entranhas da internet. Rimos à beça através da combinação rsrsrs, e, apesar da pressa em fofocar, poucas vezes abreviamos palavras. Somos de outros tempos.

O reencontro lembrou-me de coisas que havia esquecido, voltei lá atrás e enxerguei novamente colegas, cenários, momentos, diálogos. Que fantástico tudo isso. Que fascinante ter amigos espalhados. Novos, velhos, brasileiros, estrangeiros. Bill Gates, um beijo pra você! Na bochecha.

Essa história de reencontros está amadurecendo ainda mais meu conceito sobre amizade. Está mexendo comigo. Eu, que sempre valorizei gente e relacionamentos, me vejo encantada com as duas coisas. Cada dia mais. Por causa desses reencontros, na hora de deitar, tenho pensado no mesmo adágio popular todos os dias: “hoje ganhei meu dia”. E no outro dia, com um pouco de sorte, tenho mais surpresas. Ou um amigo antigo reaparece ou um novo amigo aparece.

Nesse vai-e-vem de encontros está a fantasia da espera, a vontade de causar boa impressão, a surpresa, a troca de mensagens, as longas horas de MSN, os telefonemas para relembrar a voz, os cafezinhos para comemorar, risos, brincadeiras, choques com algumas notícias, enfim, vale qualquer coisa para firmar uma amizade ou reafirmar uma que estava distante. Entenda-se “qualquer coisa” por pedacinhos bonitos do nosso eu.

Tenho lido diversos textos sobre amizade nos últimos anos. Escritos por pessoas de todo o mundo e com visões diferentes sobre as coisas que nos rodeiam. Mas todos os autores, sem exceção, escrevem a mesma coisa sobre a tal amizade: ela é incondicional e está sempre no meio de um encontro e de um reencontro. Cada um dá a ela o poder que ela merece. Sendo assim, tenho comprovado que, se o amor é o melhor remédio, a amizade é um elixir poderoso. Então, entre um encontro e outro, que permaneça intacta essa companheira que alimenta nossas relações mais puras, e palmas para o Bill Gates de novo. Ele merece.

Neusinha Gedoz - Setembro/2008

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Nosso primeiro amor

Quem não tem curiosidade de saber a história do primeiro amor de sua amiga? E do seu amigo? Que atire a primeira rosa o homem que não tiver uma linda história guardada a sete chaves sobre seu primeiro amor. Que atire o primeiro batom a mulher que não tenha dentro do peito uma romântica e ardente história cujo protagonista é um príncipe sobre um cavalo branco.

O primeiro amor de todos nós foi aquele que veio na ponta de uma flecha. E o sujeito que trazia a flecha era um anjo (que bonito isso!). Abriu a porta do nosso coração sem pedir licença, foi entrando devagarzinho, foi se instalando e li permanece até hoje. Que atire a primeira foto antiga quem não tem uma história dessas.

Nosso primeiro amor pode ter tido as mais diversas faces, mas sua marca sempre foi a mesma e nunca saiu daquele cantinho do coração em cuja porta está escrito: segredos. Para alguns foi a professora, o gerente do Banco, a filha da vizinha, o colega que sentava ao lado. Para outros foi a melhor amiga, o craque dos jogos da escola, a artista inatingível da TV, o primo que veio de longe.

A intensidade e o tamanho do nosso primeiro amor, isso é da nossa conta, não dá pra contar por aí. Os sonhos que tínhamos com nossos primeiros amores são segredos de Estado. Até podemos contar para o melhor amigo, mas sempre escondemos aquela parte íntima, que somente a nós diz respeito. Quase não dava para esconder as mãos suadas, as batidas frenéticas do coração e as faces rubras que nossos primeiros amores provocavam, mas os olhares furtivos na sala de aula, na outra calçada e na saída do cinema, isso sim era possível disfarçar.

Dançar com nosso primeiro amor merece um parágrafo à parte. Lembram? O nervosismo, o leve tremor no corpo quando ele se aproximava e dizia: vamos dançar? E a coragem que um rapaz precisava ter para chegar na amada e “tirá-la” para uma dança, que às vezes durava a noite toda. Não raro, era empurrado para a pista pelos colegas para ganhar o impulso, nós sabíamos. Nós víamos.

Hoje, nosso primeiro amor pode estar casado com outra pessoa, pode ser nosso amigo fiel, pode ter escolhido o celibato, pode viver em outro país, pode até ter casado conosco, mas nunca perdeu o nome e a imagem de primeiro amor. Porque o primeiro é o primeiro. Ele chegou antes e foi por causa dele que aprendemos a amar. E isso é muito sério pra esquecer. Faz parte de nossas questões íntimas e certamente nos arremeteu para um aprendizado, pois foi com base no primeiro que conduzimos o segundo, o terceiro ou o atual amor da nossa vida. O meu, garanto, está bem guardado.

Neusinha Gedoz - 22.04.2008

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Teclei 5 dias de carnaval



Não gosto de carnaval e por isso, para me manter ocupada, inclusive sem ligar a TV (não tenho paciência para aqueles 80min de desfile de Escola de Samba, embora tenha que admitir que as fantasias são, sim, uma obra de arte), loquei 5 filmes e retirei 2 livros da Biblioteca Pública.

O filme “Menina Má.Com - Quer teclar comigo?”, me inspirou para esta coluna. Foi o primeiro que assisti e ele me empurrou ao PC para teclar em um chat (conversação ou bate-papo). Aliás, entrei em vários chats, e em cada um deles utilizei um nick diferente (apelido utilizado pelos usuários da internet – abreviatura de nickname). Meu negócio era pesquisar.

Bem, aí eu era uma estranha no ninho. Pra começar, descobri que deveria colocar algum indício no meu nick que me identificasse como mulher, assim teclaria com homens. Utilizei o apelido Odeio Carnaval (m). Nossa Senhora... vocês não imaginam o número de pessoas que me abordaram dizendo: “então somos dois”, “eu tb”, “concordo com vc”, “quer se juntar a mim?” e por aí vai.

Em função da expressão atraente, conversei com homens, mulheres, GLS, enfim, todos que se dirigiram a mim tiveram retorno. Com alguns foi um papo normal, com outros eu me perdia. Não sabia exatamente como “me esquivar” ou como “desdobrar” sem ser antipática. Eu não podia deixar escapar o fio da meada, principalmente quando estava no bom da conversa.

Quanto às abreviaturas que os usuários utilizam nos diálogos, é coisa muito séria. São tantas que o pessoal da literatura brasileira que tem por ofício a montagem dos dicionários, pode enrolar a bandeira e começar a procurar outro emprego. O futuro das palavras inteiras foi ceifado, literalmente.

A ciranda de palavras cortadas que norteia essas salas de bate-papo foi o que mais me prendeu ao convívio, durantes horas, com pessoas do Brasil todo. Do Oiapoque ao Chuí, as expressões são as mesmas: quer tc cmgo? - vc e de q cidade - q idade - pq vc ñ gosta de carna - eu tb naum gosto - pde me dizer o nome. Acentos e pontuação quase não existem e no final de cada frase sempre aparece a repetição hehehe (que pode ser traduzida como uma risadinha ou uma mentira aplicada pelo emissor).

E assim passou mais um carnaval. Não caí na folia, mas caí de cima da língua portuguesa para a linguagem atrofiada dos chats.
Vamos cair na realidade? Vamos começar o 2008?

Neusinha Gedoz – 15.02.2008

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Maria Chuteira


Que coisa intrigante pra mim ter conhecido uma Maria Chuteira. E não fui eu quem deu este pseudônimo a ela. Foi ela mesma que se intitulou assim. Vou esclarecer: segundo ela, Maria Chuteira é uma mulher normal, mas que gosta muito, mas muito mesmo de futebol; de assistir futebol, de conversar sobre futebol, de comentar jogos de futebol e de entender o futebol.

Masculino, feminino, profissional, amador, futebol sete, de todos os tipos ela conhece as regras, vai a estádios, usa roupas de times, escuta comentários esportivos no rádio e TV, sabe os nomes dos jogadores de tudo quanto é clube. Repito: uma coisa intrigante para mim que não curto este esporte.

A Maria que conheci já usou chuteiras, já jogou futebol, já participou de campeonatos e só parou em função de uma dor aguda e constante em um joelho.

Quase tudo é normal de fazer na companhia da Maria Chuteira. O que não é normal é viajar com ela em um veículo com o rádio ligado 30 minutos antes de uma partida de futebol profissional. Minha Nossa Senhora! A Maria sabe tudo de tudo. Sai do ar para entrar em campo. Esquece que tem família, amigos, colegas de viagem. Fica surda para qualquer som que não venha do rádio. Ela não enxerga o mundo passar lá fora, somente os outdoors de propaganda de tênis ou de possíveis patrocinadores de times de futebol.

O vocabulário da Maria Chuteira, nas horas em que seu cérebro é uma bola esportiva, é pouco variado, girando em torno das mesmas palavras: atleta, disputa, placar, recorde, treino, talento, passe, federação, juiz, bandeirinha.

Como já disse, ela é normal, apresentando apenas uma anormalidade no tamanho da paixão por futebol (isso na minha opinião, porque a vida é dela, o time é dela e ela faz o que bem entender com esse amor). A fixação que ela tem pelo seu time é tão grande que os adversários são todos uns idiotas, são todos ruins pra burro e são uns pernas de pau.

Eu nunca ouvi ela falando bem de um adversário, e nem espero ouvir. Mas confesso que fiquei curiosa por essa fixação. Até já me ofereci para assistir a um jogo profissional com ela. Preciso ver de perto a dimensão que este sentimento toma quando aquelas 22 pernas de sua preferência fazem o serviço em campo. Um dia, prometo, escreverei o segundo tempo deste episódio.

Neusinha Gedoz – Agosto/2008

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