A Amizade Entre as Crianças


Domingo passado, durante o almoço, inventei de solicitar a meus dois sobrinhos e a um amiguinho deles, uma sugestão de assunto para esta crônica. Um deles falou: amizade! Outro completou: é Tia Neu, escreve sobre a amizade. E o terceiro concordou. Olhei para os três e lembrei que são amigos há bastante tempo, mesmo tendo somente dez anos. Somados, seus anos de experiências infantis, totalizam trinta. Quanta peraltice e dias preocupantes já podem ser contabilizados, pensei.

Mas não vou desviar do assunto. Pelo olhar deles notei que a amizade a que se referiam é aquela que nasce do convívio. Sem preconceitos nem cobranças. Não sei bem porque, mas acho que, lá no fundo, eles estavam falando da amizade que foi deflagrada entre crianças e adolescentes de nossa cidade na semana anterior, em virtude de um triste acontecimento que atingiu os sentimentos de nossa meninada.

Em outros tempos, amizade de gurizada era jogar bola no campinho ou boli-nha de gude no quintal; brincar de casinha; andar de carrinho de lomba nas proxi-midades da casa. Hoje os brinquedos são mais técnicos: têm pilhas, baterias, con-trole remoto e fones de ouvido. E está claro que o celular (com registro de imagem ou sem) e a internet atingem todas as classes, alastrando a amizade e fazendo mui-tos se conhecerem sem ter brincado juntos. Esse arsenal requer maior concentra-ção, raciocínio rápido e, como conseqüência, as múltiplas facetas do mundo che-gam bem depressa ao quarto de nossos filhos.

Essa comunicação facilitada, além de estreitar o entrosamento da garotada, encurta o caminho para se fazer novas amizades. Observo que há um frenesi cons-tante na forma como as crianças conduzem as amizades hoje. Dentro dessa “in-quietação”, está a troca de fotos, o envio de imagens e mensagens pela internet, organizar festinhas temáticas, pintar o cabelo de verde, vestir tudo preto, falar mui-to pelo celular, ver o mundo de forma diferente. Mesmo assim, parece que os sen-timentos estão mais aflorados, mais abertos, mais escancarados, tipo assim: “sou teu amigo de verdade, conte comigo”. Tomara que seja verdade.

E nós, adultos, que temos mania de controlar tudo, podemos até coibir al-gumas coisas, mas não podemos impedir esse sentimento bonito de amizade que as crianças cultivam de forma incondicional. Que bom!

Setembro/2007

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