Conversando e Aprendendo

Hoje, em uma conversa franca, olhei no fundo dos olhos do meu interlocutor e tentei decifrá-lo. Projetei naquela hora, numa fração de minuto, um misto de bate-papo com “hoje quero mais”. Fiz de tudo para que meu olhar não me traísse, pois ali quem estava garimpando sentimentos e pensamentos era eu. Acompanhava o balançar dos músculos de suas faces, observava a dança de seus lábios, fixava-me no seu jeito de olhar e embriagava-me pelo tom de sua voz, pelo seu sotaque, pela sua fala. Foi linda a façanha. Foi um momento único. Nunca fiquei tão calada em um diálogo. Por um momento transportei-me ao teatro e assisti a um monólogo.
Meus olhos estavam paralisados na direção de sua boca. Para cada palavra proferida, eu tinha uma fila de pensamentos a organizar em meu cérebro, porque o emissor dessa comunicação é de uma cultura invejável. Ele não sabe, mas eu o invejo. E como invejo. Sua convicção ao falar é tão firme, tão ereta, que ele parece ser o dono da verdade. Às vezes, no olho no olho, sinto-me uma formiguinha perto de um elefante. Mas logo depois desse pensamento, vem outro: posso ser uma elefanta, basta querer. Tento imitá-lo, leio seus escritos com atenção, releio. Leio de novo. Busco nas entrelinhas o sentido mais profundo que ele coloca ao se expressar. Busco no dicionário os vocábulos mais rebuscados que ele ousa usar. É ousado, intrigante, me fascina.
Gosto de gente como ele, com conteúdo e que despreza o vazio das ideias. Sinto-me bem junto de quem fala bem. Sinto-me confortável junto de quem sabe ouvir. Não menosprezo o mediano, mas gosto mesmo é do máximo. Não me contento com meio conceito, meio conhecimento, meia ideia. Quero tudo inteiro. Quero ouvir, assimilar e engolir. Não quero vocabulário indigesto, quero papo redondo, sem arestas. Não gosto de ouvir abobrinhas, não de gente grande, que estudou, que esteve perto do saber. Gosto de gente que não se curva diante de conceitos pré-estabelecidos, gosto de gente que debate e rebate um preconceito. Gente de opinião, que fala diretamente, sem rodeios, sem embromação.
Meu interlocutor não imagina que fiz essa análise dele durante a hora e meia de conversa. Também não imagina que acompanhei seus movimentos faciais com tal interesse, a ponto de observar o movimento de suas narinas nos momentos de maior empolgação. Muito menos sabe ele que me presenteou com conceitos importantes para a formação de algumas opiniões que estavam na corda bamba do meu dia-a-dia. E a distância entre nós estava ótima para uma conversa dessas: 50 centímetros entre eu e a câmera, embora houvesse um oceano a nos separar de verdade.
Neusinha Gedoz - 23.03.2009




























Não te aproximes tanto, Mulher. Ele é capaz de ter mau hálito. Quanto à tua escrita, um regalo!