Diferentes Meninos, Meninos Iguais

Mãe e filho vendendo ervas perfumadas em Bariloche - Argentina
Foto: Neusinha Gedoz
Dia desses um amigo meu, produtor cultural, músico e orquestrador, esteve na região das Missões empresariando um show. Contou-me que, do apartamento do hotel, enxergava as Ruínas de São Miguel e os indiozinhos guaranis, presença certa nas redondezas das ruínas jesuíticas. Contou-me também que as crianças ficaram encantadas com seu notebook e o chamavam de caixinha preta. Ouviam as histórias que meu amigo contava com grande curiosidade, entre elas que a caixinha preta pode fazer amigos e até passar filmes.
Pareceu-me, quando estive lá, que essas meninas e meninos, têm idades que variam entre quatro e 10 anos. Eles sempre ficam por ali no sítio arqueológico, rondando os turistas e vendendo seu artesanato, que se constitui em estátuas e imagens sacras feitas por seus pais e até por eles mesmos. Eles falam a língua portuguesa, mas sabem na ponta da língua o significado de suas origens. Dizem que “guarani” significa “guerreiro, lutador”, e que eles também são conhecidos atualmente por “kaiowá”, ou seja, “habitantes das matas”.
Essas lembranças me reportaram ao Peru e suas crianças nativas. Em qualquer região que se vá, elas aparecem a todo momento perto da gente dizendo a frase já treinada: “propina, señora, propina”. Lembrei também da meninada nativa da região de Bariloche vendendo ervas perfumadas na principal rua da cidade, chamando os turistas para cheirar um macinho de ramos e negociando até um desconto, caso o comprador pechinchar.
Diferentes meninos, diferentes meninas, oriundos de diferentes trajetórias históricas cuja realidade fez surgir novas distinções culturais. Quase todos regulando na cor da pele e na idade. Sujinhos, mas lindos e enigmáticos. Cada um no seu mundo, no seu país, no seu ofício. Na pele trazem histórias parecidas e nos olhos inspiram as mesmas curiosidades. São crianças puras, sem maldade, com habilidade nas mãos, com vocabulário ensaiado, sem pátria definida, sem escola.
As coisas do mundo moderno chegam até eles através dos turistas. Eles, por sua vez, nos contam histórias emotivas, nos ensinam detalhes de civilizações antigas.
Para conversar com eles é só puxar papo, pois eles são muito receptivos. Assim como nós queremos saber da vida deles, eles não se retraem para saber da nossa. A troca de informações pode ser muito proveitosa. Principalmente se sentarmos na calçada, na grama, na terra, e deixarmos rolar, olho no olho.
Neusinha Gedoz - Abril/2008




























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