Primeiro as Damas (Para Esquecer da Crise)



O esquete Primeiro as Damas, recentemente lançado a espetáculo teatral, é genuinamente gaúcho e encenado por três pirralhos. Os atores são tão jovens no mercado da dramaturgia, que devem usar fraldas e tomar leite com achocolatado antes de entrar em cena. Segundo eles, não faz um ano que colocaram suas caras a bater. Mas a graça de eles fazerem graça caiu nas minhas graças na noite de ontem. Meu riso veio à tona e ficou a se desdobrar por duas horas. Rendo-me à irreverência deles. E sobre isso quero dissertar. Sobre o gostoso ato de desopilar.

Desopilar, segundo o pai dos bobos significa: 1. Desobstruir; 2. Desopilar o fígado: dar largas à hilaridade. Mas não se consegue isso no teatro utilizando vocabulário normal, respeitoso e diplomático. É preciso ousar no texto e na cara de pau. E aí, a coisa debanda para o palavrão, para a obscenidade e tudo fica proibido para menores de 14 ou 16 ou 18.
Para fazer uma platéia rir, sem ficar um minutinho com o semblante estático, o artista tem que ser um “puta” artista. Há que ter jogo de cintura e interagir com o público, se necessário. Há que decorar dezenas daquelas palavras que a gente diz quando recebeu um par de chifres, quando olha o boleto dos impostos a pagar ou quando está puto da cara.

As metáforas e as performances dos artistas foram meticulosamente pensadas a ponto de nos levar às raias das contorções abdominais sucessivas e a um exercício facial tão prazeroso, que nos fez esquecer a crise mundial, os problemas de nosso país e a nossa própria ignorância. O ritmo das gargalhadas foi intenso. O texto discorreu desde o papo “manero” de um adolescente até a paródia de uma música gauchesca com letra tosca. Os atores interpretam no palco aquilo que nós queremos fazer na vida, mas temos vergonha. O que no dia-a-dia é um absurdo, no palco é natural, cômico. Atuar é a arte de viver em um mundo onde tudo pode.
Num país onde os assuntos que desfilam pelos veículos de comunicação e pelas calçadas da vida real provocam vergonha; onde o povo se embebeda de realitys shows e se empanturra de novelas sem reclamar, uma comédia no teatro é um tiquinho de felicidade. Se olharmos pelo lado cultural, o espetáculo foi composto por uma série de bobagens, sem conteúdo e que nada acrescenta à nossa evolução. Se nos deixarmos entorpecer pelo bom humor, aí temos 120 minutos de esquecimento, letargia e anestesia contra os milhares de maus minutos a que somos obrigados engolir no dia-a-dia.

Dois pesos, duas medidas. Cultura da boa, no teatro, é A Bela e a Fera, Hamlet, Marat Sade. Divertimento popular no teatro é aquilo que, abaixo do título do cartaz de propaganda, diz mais ou menos assim: Proibido para menores de.... Esquecendo a crise... Driblando as tristezas... Primeiro as Damas se propôs a fazer o público esquecer da crise por alguns momentos e conseguiu. Desopilei! Bravo!

Neusinha Gedoz - 04.04.2009

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