Aquilo que é meu, é meu.



Tem coisas que nos acontecem e merecem virar história. Considero a trajetória de meu primeiro óculos de sol (personalizado) uma delas. Gente, isso já tem mais de três décadas. Somente agora, depois de um episódio desagradável de “perda de documentos”, lembrei do meu companheiro pretinho de muitos anos.

Antes de trocar minha cidade natal do interior do Rio Grande do Sul por uma considerada “cidade grande”, onde o sol reinava quase todos os dias, amarelo, redondo, grande e quente, fui informada dos inconvenientes de se franzir a testa e ganhar, gratuitamente, marcas de expressão por conta da dança da pele quando o sol batia nela. Sendo assim, fazia sentido ter um óculos protetor, já que onde eu morava o dito cujo era dispensável pois predominavam as cores cinza dos dias nublados e branco da neblina constante.

Mal cheguei ao destino e alguém me disse: precisas de um óculos de sol, um ray-ban. Nem pestanejei, já estava com a testa franzida mesmo. Fui. Entrei em uma ótica chiquérrima que, num primeiro momento, pensei que aquela não era loja pra mim. Eu, uma interiorana, simples, sem frescuras, dentro de uma loja daquelas, onde tudo era espelhos, brilhos, reflexos. Agora sei que era para ser assim.

Escolhi um modelito simples e barato, claro. A balconista, simpática e bem treinada, sugerindo que eu era parecida com uma artista da novela Dancing Days, ofereceu-me um óculos personalizado. Ou seja, ela utilizaria um sistema de aquecimento a fogo para dar outro formato às hastes do óculos e assim ele ficaria com o formato exatamente igual ao óculos usado pela tal artista. De novo veio aquele pensamento simplista: eu, parecida com uma artista global, da novela que vai ao ar em horário nobre? Esta mulher está louca mas, se o preço for legal, não custa entrar na loucura dela. Aprovei a feitura da obra e deixei-me levar. Nada mal: estava em cidade grande, em loja chique e com nova alcunha: sósia da protagonista da novela das oito.

Morei 16 anos naquela cidade. Sempre usando o mesmo óculos. Ele foi tão personalizado, tão feito pra mim, era tão a minha cara que nunca destoou. Isto é fato. Combinou com meu visual durante 16 verões. Mas a história que merece destaque não é esta que você leu e sim esta que vais ler agora.

Nestes 16 anos perdi (ou esqueci em algum lugar) o tal óculos mais de 30 ou 40 vezes. E ele sempre voltou às minhas mãos. Impressionante. Os locais foram os mais variados, desde a casa da vizinha até um escritório a uma distância de 5.000 quilômetros. Incluem-se aqui lojas de shoppings, enterros, exposições, ginásios, enfim, lugares públicos onde aquela coisa pequenina podia se desperdiçar. Que nada, sempre voltou para mim. Afinal, era meu.

No último dos 16 verões na cidade grande, ao despedir-me do apartamento que estava deixando para voltar à minha cidade de origem, sentei no sofá para aquela última olhada ao redor e, crac, parti o pretinho ao meio. Deixei-o ali mesmo. Ele tinha cumprido sua missão. E a moda devia ter mudado fazia uns 14 anos.

Neusinha Gedoz - 12.05.2009

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1 Response to "Aquilo que é meu, é meu."

  1. Anônimo, on 13 de maio de 2009 07:38 said:

    Putz!, quisera eu ser fiel por 16 verões a um par de óculos de sol... Raramente sobrevivem, os meus, até o equinócio de março seguinte. Esqueço-os, somem, furtam-me, quebram-se.
    O teu pretinho nada básico, vez que personalizado, teve heróica existência, conclui-se. Mas vamos combinar: não precisavas ficar parecida com uma atriz de telenovela. Tu és mais linda que todas elas. E mais inteligente. Tens tua própria luz capaz de ofuscar qualquer estrela global.
    Os 16 verões com os mesmos óculos, contudo, dizem muito de ti; és leal, percebe-se; tens gosto apurado e clássico, que perdura além da sazonalidade da moda; sabes o que quer e tens a medida exata da suficiência. Isso é ótimo. És ótima!