Nissei, Sansei, não sei



Sempre pensei que os olhinhos fechadinhos e puxadinhos, imitando duas canoazinhas, das pessoas orientais fossem fáceis de controlar no sol, por exemplo. Pois não é. Encontrei em praça pública pai, mãe e filho, todos com esses olhinhos. A foto que alguém estava clicando dos três exigia que ficassem com o rosto para o sol.
O menino não parava de reclamar repetindo em bom em português e voz baixinha: “meus olhos não ficam abertos”. E os pais nem aí. Claro, somavam umas sete décadas a mais de experiência de vida que o garoto e, com certeza, já dominam as técnicas para ficar com olhos abertos sem a utilização de palitos verticais em ambientes de muita claridade.

Encantada, fiquei parada pertinho do cenário. Só faltou ficar de boca aberta. Gosto de cenas pitorescas, inusitadas. Gosto do ser humano na sua essência e aquele menino era um prato cheio naquela tarde. Queria ver o desfecho da fotografia mesmo sabendo que não veria a estampa no visor da digital. O final que presenciei foi o de duas pessoas com olhos normais e uma com dois risquinhos acima do nariz. As três bocas puxadas para os lados, evidentemente.

Uma hora mais tarde encontro o menino embaixo do telhado de uma lanchonete, agora de olhos abertos, mas tão fechados ainda que não consegui ver a cor, a meio metro de distância. Mas também não era preciso. Orientais têm olhos escuros, sempre escuros. Demorei alguns minutos para entender que duas bochechas redondas, segurando uma testa igualmente redonda, tudo acima de um queixo também redondo, certamente guardavam lá no meio duas cavidades suavemente desenhadas que, na minha visão, pareciam duas canoazinhas, molhadas pela água do olhar.

Aquele menino segurou minha atenção sobre ele por um bom tempo. Não só pelo olhar, mas pelo tom da pele, pelos dez buraquinhos em cima dos dedos das mãos, pelo cabelo espetado e negro como carvão, pela voz fina e fraca emitida por um corpo avantajado. Cativou-me pelas suas características e educação esmerada.

Tenho andado às voltas pelo mundo através de um site de fotografias e, quando bato o olho em Tóquio, Yokohama, Osaka e outras cidades do gênero, meu olho pede uma paradinha maior. Aquelas carinhas todas iguais, só mudam de roupa. Aquelas mãozinhas todas iguais, só trocam de mochila. Aqueles olhinhos todos iguais, só mudam de óculos. Quanto ao menino da praça, se era Nissei ou Sansei, não sei. Mas era uma Japinha tri legal.

Neusinha Gedoz – 19.05.2009

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