Apenas Uma Constatação

Alguém escreveu certa vez: “a alma é mais branca naquele em que a carne é mais feia”. Não sei se era poesia ou letra de música; não importa. Importa a profundidade da coisa. Mas uma certeza eu tenho: o texto mencionava o índio. Esse sujeito que habitou nossas terras desde o primeiro dia que ela foi descoberta. Esse sujeito que morava aqui e nós viemos perturbá-lo. Esse sujeito que tem seu jeito, que não é o nosso. Esse sujeito que demorou décadas ou séculos para reclamar dos brancos. Até então, olhava tudo, perplexo, acanhado, chorando por dentro.
Nós mexemos em tudo o que era dele: nas montanhas, nos rios, na mata, no mar. Ele diz que “não devemos mexer nas coisas que vieram antes de nós porque não temos esse direito”. Ele tem essa sabedoria. Nós não. Nós nos apegamos a livros para aprender alguma coisa. Ele sabe muito. Sabe dizer se vai chover olhando a sombra do sol numa montanha. Ele conhece a mata e todas suas propriedades. É professor, protetor, curandeiro, provedor, é conselheiro, é tudo de bom que pode haver numa pele feia.
Nós, brancos de pele bonita, precisamos de anos sentados num banco escolar para aprendermos que não sabemos nada. O índio desta minha crônica é um sujeito sábio. Ele nunca bateu no seu filho; nunca esqueceu um ritual nem tampouco como pintar o corpo para tal; faz cestos coloridos com maestria, sem curso nenhum; tem uma pontaria invejável e canta, canta para toda sua tribo ouvir. Um canto melancólico, às vezes forte, às vezes choroso.
A flauta de bambu, velha companheira dele, está sempre à mão. Ele a toca para sua família, para o mar, para seu Deus, que pode ser o sol ou pode ser a lua. Ele conhece seu Deus. Ele ora através de gestos, de cara pintada, de joelhos na areia. Ele não veste quase nada, a não ser os adornos que sua cultura ensina. Nós brancos, precisamos vestes diferentes, uma para cada ocasião. Engraçado: tudo para cobrir a pele bonita.
Que cor tem a alma do meu índio? Cor de rosa quando canta, azul quando calcula a temperatura, vermelha quando chega um branco na aldeia, verde quando cura alguém com chá, marrom quando caça, lilás quando trança cestos e branca quando ora. Mas que cor tem a pele do meu índio? A julgar pela forma como ele vê o mundo, só pode ser um arco-íris.
Neusinha Gedoz – Outubro 2000




























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