Magda X Roberto Carlos

Nos tempos da faculdade, íamos, Magda e eu, todos os dias a Bento Gonçalves. Estudávamos na FERVI – Fundação Educacional da Região dos Vinhedos, Faculdade respeitada na época (anos 60 e poucos) e abrigo da maioria dos estudantes de terceiro grau da região. O trajeto era feito de ônibus, veículo preferido para quem queria desopilar em público.

Magda era uma dessas pessoas (como eu) que falam alto, que gesticulam, que sentam na frente para poder fazer sua voz chegar lá atrás e provocar curiosidade. Falávamos o tempo todo. Em tom baixo, alto, a meio tom, sussurrando, enfim, sempre com a boca funcionando. Contávamos fatos inéditos aos colegas, éramos duas matracas. Ríamos também. Até das desgraças (aliás, tínhamos poucos motivos para rir, eram tempos difíceis).

Um dia qualquer, não estou lembrando quando, na viagem de ida à Faculdade, Magda dizia repetidamente ao motorista para ele andar depressa, pois ela tinha que ver o show de Roberto Carlos no Clube Aliança de Bento Gonçalves. E não parava de repetir, com seu jeito brincalhão: “vamo motorista, que tenho que vê o Roberto Carlo”! Passados alguns minutos do último aviso ao motorista, não contente com seus recados a ele, Magda se mandou lá para a frente do ônibus, sentou no motor, que ficava ao lado do motorista, e continuava com sua ladainha: “vamo motorista, que tenho que vê o show do Roberto Carlo”! E assim foi até chegarmos ao estacionamento da escola. Se você está duvidando, esclareço: o Rei estava mesmo na cidade de Bento para um show no clube mais chique da cidade.

Eu fazia o mesmo curso que a Magda, mas em tempos diferentes, ou seja, eu não fazia as mesmas disciplinas que ela, portanto, não nos víamos em sala de aula, somente nos intervalos e nas idas e voltas. Se a Magda foi ou não ao show, essa é outra história, mas o término desta que comecei aqui é muito engraçado.

Terminados os períodos de aula, voltei ao ônibus. Em seguida chegou a Magda, com cara de brava, quase bufando. Quando todos os colegas estavam a postos para o retorno, Magda se plantou do lado do motorista e disse em alto e bom tom para que todos ouvissem: “vamo motorista, que agora é o Roberto Carlo que qué me vê”! Foi uma trovoada de risos.

E a “palhaça” falou sério. Não moveu um músculo sequer daqueles necessários para o sorriso. Virou-se de costas para o motorista e foi sentar. Sempre séria. A situação parecia verdadeira. Mas quem conhecia a dita cuja sabia quantas ela aprontava em uma única noite. Imaginem durante os quatro anos de Letras o quê essa mulher aprontou.
Se o Roberto Carlos quis ver a Magda, tenho minhas dúvidas. Se a Magda viu o Roberto Carlos, também não sei. Mas não duvidaria se me contasse que fugiu da aula, subiu sorrateiramente as escadas do clube e viu o topo da cabeça do Rei. Da cabeça, porque coroa ele nunca usou.

Neusinha Gedoz – Julho 2009

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