Cálculos e Mais Cálculos

Parece mentira, mas não é. Em uma sexta-feira, no final da tarde, em viagem terrestre de duas horas e meia, num coletivo de 43 passageiros, presenciei um fato no mínimo inusitado para os dias atuais. Bem à minha frente, ao alcance de minha vista, estavam três rapazes jovens, cujas idades calculei entre 18 e 20 anos. Pareciam ser de famílias diferentes, pois cada um tinha características próprias, bem diferentes de um para outro.
Primeiro fato curioso: nenhum utilizava fones de ouvido, ou seja, nenhum estava curtindo som. O resto do povo daquele ônibus estava. Inclusive eu. Calculei que eles não eram normais.
Segundo: Depois um deles tirou da mochila um pacote de bolachas tipo rosca e ofereceu aos outros dois. Todos comeram. Aí calculei que eram estudantes, amigos e talvez dividissem o mesmo apartamento, já que todos gostavam daquela iguaria.
Terceiro episódio: de repente um deles retirou da mochila um aparelho preto, cheio de botõezinhos e começou a teclar. Era maior que um celular, maior que um pen drive, maior que uma calculadora de bolso. Não demorou muito e o dono do ONIPM (objeto não identificado por mim) começou a fazer cálculos e colocá-los à apreciação dos dois colegas. Pareciam cálculos matemáticos e os três falavam a mesma linguagem.
Quarto ato: também retirando das mochilas, os dois puxaram dois livros grossos, cujo conteúdo era formado por desenhos de réguas, ângulos, compassos, traços retos, curvos, muitos números, muitos sinais gráficos. Agora o cenário estava completo. Os jovens dos livros lançavam desafios através de perguntas para o moço da “calculadora”, que captava as coordenadas e respondia em voz alta alguns resultados.
Calculei que estava numa sala de aula de engenharia e calculei também quantas pessoas estariam observando aqueles três jovens. Cheguei à resposta rapidamente: somente eu. Como eu os escutava? Baixei o som do meu som.
Estavam estudando, recapitulando a matéria, repassando os cálculos. Alunos CDF? Jovens com uma prova pela frente na semana seguinte? Ou simplesmente fazendo o dever de casa (neste caso, dever de ônibus) para aumentar o tempo livre no sábado e domingo que se aproximavam? Fiz meus cálculos e meus resultados apontaram três jovens responsáveis, de bem com seus estudos e nada resmunguentos por ter que estudar na viagem.
Normal. Tudo normal para meus conceitos. Gosto de gente assim. Aplicada e ao mesmo tempo leva a vida na boa, sem estresse. Tem que estudar? Então vamos estudar, e ponto final. Tem que calcular? Então vamos calcular e fim de papo.
Neusinha Gedoz - Novembro de 2008




























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