Impontualidade

Em janeiro, durante as férias, depois de uns cinco dias de convívio com um grupo de pessoas, um homem se aproximou de mim, sem mais nem menos e disse: “dentre todas as suas qualidades descobri um único defeito que, para mim, é grave”. Eu, que não sabia do que ele estava falando e nem o tinha notado até então, fiquei boquiaberta, surpresa e um pouco indignada. Como assim, alguém chega perto de mim, na presença de uma colega, olha no meu olho e vai dizendo logo que tenho um defeito e grave?
Olhei pra ele, olhei não, encarei-o e arremeti uma pergunta com ponta de ironia (como se eu não pudesse ter defeitos): Sério? E ele, serenamente, fitando no fundo dos meus olhos disse novamente: “você tem muitas qualidades, mas tem um defeito imperdoável”. Minha colega e eu nos olhamos e resolvi baixar a guarda, inclusive porque notei que o restante do grupo estava alheio à nossa conversa. Mas antes de deixá-lo dizer o dito cujo defeito, analisei-o em frações de segundo: alto, nada bonito, grisalho, charmoso, 50 e alguns anos, casado, falava línguas, tinha bigode (não gosto de homens de bigode), mãos bonitas, comunicativo, inteligente e, para encerrar, eu sabia que era culto, pois alguém já havia comentado sobre isso. Resumindo: reunia qualidades que eu apreciava e defeitos que eu rejeitava.
Feito o estereótipo do sujeito, descontraí o rosto e com um sorriso curioso disse-lhe: “pois então diga!”. E ele disse mesmo, na minha lata, sem rodeios, sem preparar meu espírito (se bem que, durante a análise que fiz dele no último minuto, falei para meu espírito ficar preparado, pois aí vinha bomba), sem vacilo nenhum, pronunciou bem devagar: “você é impontual”! Esbocei um ah... que foi respondido por outra vez: “é isso mesmo, você é impontual”!
Juro que não entendi. Nem minha colega. Vendo nossas expressões de surpresa, tratou logo de concluir: “você chegou tarde demais na minha vida, por isso és impontual”. Ahhhh... Fiquei meio confusa, um misto de me achar o máximo com ele está tirando com a minha cara. Não sei como ficou meu semblante, mas tenho certeza que não gostaria de ninguém por perto nessa hora. Minha colega era uma ouvinte próxima e analisava cada músculo meu. Queria poder estar só com ele, para ver o rumo que tomaria essa conversa. Gosto dessas experiências relâmpagos.
Imediatamente (essa classificação de tempo deve ter durado uns 10 minutos no meu cérebro) agradeci a observação e tratei de mudar a prosa, sem ficar vermelha. Atitude que foi reprovada pela minha colega e por ele também. Problema deles. Eu estava na minha, muito bem, obrigado.
Impontual! Impontual é a vovozinha.
Neusinha Gedoz – 27 de julho de 2008




























Eheheheh ... muito boa essa Neusinha!
Descobri hoje o teu blog, pelo e-mail que recebi, legal, gostei!
Falar em blog - tu viu o filme Julie&Julia???
É estimulante, não perca!
Beijos e manda notícias
Patricia Gedoz :)
Vovozinha: o homem tinha toda a razão. Você é impontual! tenho dito... rssss