Na mira de um observador

Remexendo fotos antigas, algumas em P&B, outras no tamanho 9x9, encontrei uma em especial que reportou-me há mais de 20 anos, quando fui, com minhas colegas de colégio, pela primeira vez a uma praia. A imagem é inusitada: seis mulheres de bruços (ou de bunda pra cima, para ser mais anatomicamente explícita), todas exatamente na mesma posição. A largura dos biquínis era exatamente igual, só mudavam os desenhos. Obedeciam à moda da época. A praia escolhida era o que tínhamos de melhor no Rio Grande do Sul: Torres.
Uma autêntica semana de férias para se registrar com fotos, escrever no diário e guardar para a posteridade. Tudo lindo, cenários exuberantes, gente bonita, calçadas limpas, areia sem entulhos, fotógrafos fazendo binóculo com a foto da gente, até nossa colônia de férias era boa: tinha banheiro com chuveiro que funcionava. Foram dias seguidos com a mesma rotina. Levantar, tomar café, distribuir a tarefa doméstica entre as habitantes do local, passar bronzeador, munir-se de sacola, toalha e óculos. Era isso. Não tínhamos cadeira nem guarda-sol. Que ótimo sem aquelas tralhas.
Tudo normal durante dias até nossa última tarde, quando apareceu um fotógrafo perto de nossa turminha e perguntou se podia dizer a que conclusão chegara depois de algumas horas nos observando de cima de uma duna. Eu não queria acreditar no que estava ouvindo, mas que era verdade que nos observava, era. Eu o tinha notado a uma certa distância, com sua máquina em punho, mirando o zoom para nossa direção. Mas ele não tinha fotos a oferecer. Tinha uma opinião formada sobre cada uma de nós e queria expô-la. Deixamos.
Ele observou e expôs a utilização que cada uma de nós teria se ele montasse uma casa e se nós fôssemos móveis. Mesa, cadeira, essas coisas. Seguindo a fila, começou pela primeira. A segunda era eu: disse-me que seria um criado-mudo (tadinho, logo eu que falo pelos cotovelos), pois demonstrava ser de confiança, estar sempre pronta, à disposição em caso de necessidade. É, gostei! Chegando à última garota, disse-lhe que seria um bibelô (a princípio fiquei com inveja, depois ri e fiquei quieta) e a colocaria em cima do criado-mudo, porque do jeito que se enfeitava, indo à praia com pulseira, brincos, correntinha no pescoço e lábios pintados com batom vermelho, serviria somente para enfeitar, não teria outra utilidade. Pronto. Terminei o relato.
Depois deste episódio fui à praia somente uma vez. Nada de medo de fotógrafos, é que praia não é minha praia.
Neusinha Gedoz – Fevereiro de 2009




























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