Maria Chuteira


Que coisa intrigante pra mim ter conhecido uma Maria Chuteira. E não fui eu quem deu este pseudônimo a ela. Foi ela mesma que se intitulou assim. Vou esclarecer: segundo ela, Maria Chuteira é uma mulher normal, mas que gosta muito, mas muito mesmo de futebol; de assistir futebol, de conversar sobre futebol, de comentar jogos de futebol e de entender o futebol.

Masculino, feminino, profissional, amador, futebol sete, de todos os tipos ela conhece as regras, vai a estádios, usa roupas de times, escuta comentários esportivos no rádio e TV, sabe os nomes dos jogadores de tudo quanto é clube. Repito: uma coisa intrigante para mim que não curto este esporte.

A Maria que conheci já usou chuteiras, já jogou futebol, já participou de campeonatos e só parou em função de uma dor aguda e constante em um joelho.

Quase tudo é normal de fazer na companhia da Maria Chuteira. O que não é normal é viajar com ela em um veículo com o rádio ligado 30 minutos antes de uma partida de futebol profissional. Minha Nossa Senhora! A Maria sabe tudo de tudo. Sai do ar para entrar em campo. Esquece que tem família, amigos, colegas de viagem. Fica surda para qualquer som que não venha do rádio. Ela não enxerga o mundo passar lá fora, somente os outdoors de propaganda de tênis ou de possíveis patrocinadores de times de futebol.

O vocabulário da Maria Chuteira, nas horas em que seu cérebro é uma bola esportiva, é pouco variado, girando em torno das mesmas palavras: atleta, disputa, placar, recorde, treino, talento, passe, federação, juiz, bandeirinha.

Como já disse, ela é normal, apresentando apenas uma anormalidade no tamanho da paixão por futebol (isso na minha opinião, porque a vida é dela, o time é dela e ela faz o que bem entender com esse amor). A fixação que ela tem pelo seu time é tão grande que os adversários são todos uns idiotas, são todos ruins pra burro e são uns pernas de pau.

Eu nunca ouvi ela falando bem de um adversário, e nem espero ouvir. Mas confesso que fiquei curiosa por essa fixação. Até já me ofereci para assistir a um jogo profissional com ela. Preciso ver de perto a dimensão que este sentimento toma quando aquelas 22 pernas de sua preferência fazem o serviço em campo. Um dia, prometo, escreverei o segundo tempo deste episódio.

Neusinha Gedoz – Agosto/2008

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