Fazendo as pazes com a escrita
Um ano e meio sem escrever. Este foi o tempo que fiquei sem produzir sequer um parágrafo fora das respostas a e-mails. Sempre pratiquei a escrita, desde que me conheço por gente. Minha primeira poesia nasceu logo após completar treze anos. De lá para cá vinha escrevendo regularmente, com alguns pequenos intervalos em função de compromissos que exigiam distância de uma máquina de escrever ou computador. Agora, depois dos cinquenta, no auge do amadurecimento, fiz uma parada de dezoito meses. Quase não acredito que fiz isto comigo. Pra mim, escrever é mais ou menos como comer. Todo dia preciso um pouco. Por isso, meio que me abandonei. Meu eu ficou magro.
Não tenho muita curiosidade em descobrir o motivo deste espaço em branco. Penso que não precisamos respostas pra tudo. Gosto de fazer o que me dá prazer. Não gosto de fazer nada sob pressão. Não estava a fim de escrever e pronto. Talvez esteja ai parte da resposta. E outra parte pode estar na obediência semanal ao meu hobbie predileto: fotografia.
Fotografo desde cedo também e, de uns anos pra cá, minha paixão pela fotografia foi se aprimorando, foi virando mania, foi se transformando em rotina. Apenas para ilustrar, minhas primeiras fotos foram capturadas, também, aos treze anos, com uma câmera analógica da época, e o cenário era composto por Branca de Neve e os Sete Anões, estatuetas rigorosamente plantadas nos jardins do hospital de minha cidade. Um luxo só.
No final do ano passado, quando fechei quatro décadas de fotografia, voltei àquele local e fotografei os mesmos personagens, o mesmo cenário. Com pequenas diferenças: algumas rachaduras nas estátuas e a pintura marcada por uma demão sobre a outra. Um momento único, impagável. Essa paixão pela fotografia é prazerosa. Com ela não tenho decepções. Assim como não as tenho com a escrita.
Confesso que neste ano e meio afastada do teclado, nunca me senti totalmente à vontade. Parecia que faltava algo. Em muitos momentos me pegava pensando: preciso voltar a escrever. Me penitenciava pela falta comigo mesma, mas acabava sempre ficando com a fotografia. São fases. Acredito (muito) nesta frase de duas palavras.
O parar de escrever veio acompanhado do para de ler. Durante este tempo li somente o que passava à minha frente, tipo assim, cartazes nas vitrines, outdoors, jornal em salão de beleza, fofocas sobre celebridades em recepções, meia dúzia de livros e textos recebidos pela net. Isto e nada é a mesma coisa. Sem leitura, nada de escrita. Sem escrita, sem identidade própria. E mais, sem escrever, não alimentei meu blog. Foi outro que passou fome. Vez ou outra dava uma passada por ele e lia minhas crias. Todas as vezes sentia remorso.
Dizem que sempre é tempo de retomar, refazer e reviver. Então, estou de volta. Fazer as pazes com o exercício da escrita é brincar com o cotidiano, é deixar as ideias fluírem pelos dedos, é desmanchar o nó da garganta, é tomar sopa de letrinhas pra nutrir minhas entranhas. Fazer as pazes com a escrita é entrelaçar de novo as letras, é ler para escrever e escrever para ler. O único senão dessa história é, mesmo contrariada, reafirmar a amizade com a reforma ortográfica.
Pronto. A paz está restabelecida: sete parágrafos, mais de 3200 palavras e meu eu está aplaudindo meu desabafo. Ufa... hoje lavei a alma.
Neusa Maria Gedoz – 21 de junho de 2010
Não tenho muita curiosidade em descobrir o motivo deste espaço em branco. Penso que não precisamos respostas pra tudo. Gosto de fazer o que me dá prazer. Não gosto de fazer nada sob pressão. Não estava a fim de escrever e pronto. Talvez esteja ai parte da resposta. E outra parte pode estar na obediência semanal ao meu hobbie predileto: fotografia.
Fotografo desde cedo também e, de uns anos pra cá, minha paixão pela fotografia foi se aprimorando, foi virando mania, foi se transformando em rotina. Apenas para ilustrar, minhas primeiras fotos foram capturadas, também, aos treze anos, com uma câmera analógica da época, e o cenário era composto por Branca de Neve e os Sete Anões, estatuetas rigorosamente plantadas nos jardins do hospital de minha cidade. Um luxo só.
No final do ano passado, quando fechei quatro décadas de fotografia, voltei àquele local e fotografei os mesmos personagens, o mesmo cenário. Com pequenas diferenças: algumas rachaduras nas estátuas e a pintura marcada por uma demão sobre a outra. Um momento único, impagável. Essa paixão pela fotografia é prazerosa. Com ela não tenho decepções. Assim como não as tenho com a escrita.
Confesso que neste ano e meio afastada do teclado, nunca me senti totalmente à vontade. Parecia que faltava algo. Em muitos momentos me pegava pensando: preciso voltar a escrever. Me penitenciava pela falta comigo mesma, mas acabava sempre ficando com a fotografia. São fases. Acredito (muito) nesta frase de duas palavras.
O parar de escrever veio acompanhado do para de ler. Durante este tempo li somente o que passava à minha frente, tipo assim, cartazes nas vitrines, outdoors, jornal em salão de beleza, fofocas sobre celebridades em recepções, meia dúzia de livros e textos recebidos pela net. Isto e nada é a mesma coisa. Sem leitura, nada de escrita. Sem escrita, sem identidade própria. E mais, sem escrever, não alimentei meu blog. Foi outro que passou fome. Vez ou outra dava uma passada por ele e lia minhas crias. Todas as vezes sentia remorso.
Dizem que sempre é tempo de retomar, refazer e reviver. Então, estou de volta. Fazer as pazes com o exercício da escrita é brincar com o cotidiano, é deixar as ideias fluírem pelos dedos, é desmanchar o nó da garganta, é tomar sopa de letrinhas pra nutrir minhas entranhas. Fazer as pazes com a escrita é entrelaçar de novo as letras, é ler para escrever e escrever para ler. O único senão dessa história é, mesmo contrariada, reafirmar a amizade com a reforma ortográfica.
Pronto. A paz está restabelecida: sete parágrafos, mais de 3200 palavras e meu eu está aplaudindo meu desabafo. Ufa... hoje lavei a alma.
Neusa Maria Gedoz – 21 de junho de 2010




























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